sábado, 8 de outubro de 2011

"Corrupção nossa de cada dia", por Carlos Henrique

* Carlos Henrique Leite
Não há mal que dure para sempre, nem bem que se eternize. A sociedade brasileira, ou parte dela, parece que afinal começa a despertar da letargia, do berço esplêndido.Aqui,ali e acolá, surgem, ainda que sem muita convicção, de maneiratímida, sinais de inconformismo, de indignação, contra a chaga social que é essa corrupção patológica que se acomodou nas entranhas da República e se afigura um mal incurável.A corrupção é uma herança maldita, que se aperfeiçoa no dia a dia nos gabinetes alcatifados,nos porões, nas esquivas e logradouros públicos, passa de geração em geração, e para o pesar de toda uma nação, está bem enraizada,sólida, já faz parte dos hábitos e costumes de todas as classes sociais, sem exceção.Teme-se que a qualquer momento seja criado o dia nacional do corrupto, ou mesmo, que seja proclamada em nossas assembleias, uma moção de aplausos aos bons serviços prestados à comunidade. Tal o grau de sofisticação e cinismo que alcançou no decorrer desse tempo. A corrupção tornou-se regra, honestidade é a exceção. O mau caratismo se impregnou de tal forma que se tornou rotineiro. O feio, o tolo, o atrasado, hoje em dia, é não burlar as instituições, os cofres públicos; o sujeito honesto não tem a menor serventia. Faz algum tempo que quando alguém era pego no malfeito, com a mão na massa, na sujeira, se envergonhava, enrubescia, fugia das pessoas; houve caso, em que o indigitado chegava ao extremo de cometer suicídio, por não ter condições de encarar as pessoas. Hoje isso não existe mais, o notório corrupto, desfila rua acima, rua abaixo, lépido e fagueiro, e o largo sorriso estampado na face.
        Fala-se muito, chega-se mesmo a lançar toda a culpa desta praga que infesta opaís, noespinhaço da classe política brasileira, nos políticos em geral. Nada mais enganoso e simplista.Os políticos são nossos amigos, nossos parentes, nossos vizinhos, em suma, somos nós mesmos, portanto, nada mais injusto atribuir aos políticos a pecha de gatunos inveterados e farsantes; os culpados, na verdade, convivemharmoniosos em todas as classes sociais; se os políticos são corruptos, é porque todos somos corruptos, a malversação não é privilégio de nenhuma classe em particular. Xô, sociedadezinha corrupta!
E o que dizer da justiça brasileira?Com certeza, não faz a sua parte. Enquanto o Ministério Público, a Controladoria Geral da União, os Tribunal de Contas, a Polícia Federal, não dão sossego aos malfeitores, a Justiça faz de conta que não é com ela, se mantém numa indiferença olímpica.A impunidade que assola o país é na verdade a grande incentivadora da formação de quadrilhas que dilapidam o erário público. Na primeira instância há um certo rigor, juízes jovens, concursados; mas, nos tribunais superiores a coisa desanda, os ministros estão mais preocupados com teses acadêmicas, teorias sociológicas; perdem muito tempo com aqueles calhamaços de votos enfadonhos que não se acabam mais.
* Escritor

Nenhum comentário: